O confronto entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ocorrido diante das câmeras durante a sessão desta terça-feira (15/9) é considerado de menor intensidade se comparado às discussões travadas entre eles por mensagens de WhatsApp nos dias anteriores.
Gilmar Mendes manifestou a Kassio Nunes Marques sua convicção de que houve uma articulação conjunta com André Mendonça e Luiz Fux no julgamento que decidiu pelo afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal.
Fux e Kassio apresentaram seus votos com apenas quatro minutos de diferença.
Uma sequência de horários chama atenção: Gilmar pediu vista às 10h01; Fux apresentou seu voto às 10h04; e Kassio, às 10h06, o que sugere uma combinação entre os dois últimos. Não é comum que ministros votem após um colega solicitar vista.
A sessão surpresa, segundo o decano, também teria sido acertada reservadamente na sexta-feira anterior.
A suspeita de Gilmar é ainda mais grave: ele acusa Mendonça de ter ignorado conversas encontradas no celular de Daniel Vorcaro que atingiriam Kassio e outros ministros e, em contrapartida, recebido apoio para suas decisões no caso.
Foi nesse contexto que Gilmar e Kassio migraram do embate no Supremo para o WhatsApp.
“Assumam q estao ferrados e saiam dos processos. Abram as contas”, escreveu Gilmar.
“Me respeite Gilmar. Isso não é postura”, reagiu Kassio.
Gilmar elevou o tom:
“Nao julguem porra. Não respeito a quem nao se daH respeito. Vc tem de sair do tse também.”
“Então não me tecle pois não falo com quem não me respeita”, respondeu Kassio.
Gilmar insistiu:
“Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso na turma.”
Kassio respondeu que não teria problema em fazê-lo:
“Abro com o maior prazer. Há 15 anos que presto contas de tudo. Como juiz. Tramoias ….”
Gilmar encerrou estendendo a cobrança aos parentes do ministro:
“Verdade! De sua família…”
A referência à família não foi gratuita. Conforme revelado pela coluna, em conversas de WhatsApp com o diretor jurídico do Master, Daniel Vorcaro é informado de que foram pagos R$ 500 mil para Kevin Nunes Marques, filho do ministro Nunes Marques. O ministro nega que seu filho tenha trabalhado para o Banco Master e que tenha tido acesso ao relato.
Após a reportagem, Nunes Marques declarou-se impedido de participar do julgamento que definirá se a Corte deve ou não investigar Alexandre de Moraes por suas relações com Vorcaro.
O Metrópoles também mostrou relações profissionais e de intimidade do filho de Luiz Fux com Daniel Vorcaro.
Vorcaro procurou o advogado Rodrigo Fux pedindo sua ajuda em um caso: “Quero te chamar pra me ajudar num caso”, escreveu o banqueiro. O filho de Fux colocou-se à disposição, agendou videoconferência para o dia seguinte e respondeu: “Será um prazer, se eu puder ajudar”. Vorcaro agradeceu: “Valeu irmão”.
Relatório de inteligência da PF também aponta diferenças na velocidade com que Mendonça analisava medidas solicitadas pela PF. Segundo o relatório, pedidos contra aliados do governo, como Jaques Wagner, teriam sido decididos com maior rapidez do que aqueles envolvendo políticos da oposição, como Claudio Castro, ligado ao grupo político de Jair Bolsonaro.
É esse conjunto de episódios que alimenta a acusação de Gilmar de que Mendonça teria conduzido o caso de maneira seletiva e poupado ministros que, depois, lhe deram sustentação no julgamento da Segunda Turma. Mendonça e Fux negaram com veemência as suspeitas.