Mais

    Em nota, EUA classifica PCC e Comando Vermelho como ‘ameaças à segurança regional’

    O governo dos Estados Unidos deve incluir as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) na lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês).

    A informação foi confirmada à Jovem Pan pela porta-voz do Departamento de Estado e assistente do secretário Marco Rubio, Amanda Robertson, durante a cúpula “Escudo das Américas” – evento liderado pelo presidente Donald Trump que reuniu líderes latino-americanos alinhados a seu governo, realizado na cidade de Doral, no sul da Flórida .

    A documentação técnica referente às duas organizações já foi concluída no Departamento de Estado e recebeu aval de diferentes agências norte-americanas, restando agora etapas políticas e burocráticas para formalização. O processo segue o mesmo formato adotado recentemente para classificar outras quadrilhas da América Latina, como o Cartel de Jalisco (México) e o Tren de Aragua (Venezuela) .

    Após a aprovação final na mesa do secretário Marco Rubio, o material será encaminhado ao Congresso dos EUA e posteriormente publicado no Registro Oficial Federal, procedimento que deve levar aproximadamente duas semanas . A medida permitirá o congelamento de ativos de integrantes das facções em território americano, a exclusão dessas redes do sistema financeiro dos EUA e a proibição de qualquer forma de “apoio material”, como fornecimento de armas, por cidadãos ou empresas norte-americanas .

    Brasil manifesta preocupação com implicações para soberania nacional

    O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reagiu com apreensão à sinalização norte-americana. Na noite de domingo (8), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com o secretário Marco Rubio para tratar do assunto. A ligação, buscada pelo Itamaraty desde sábado, abordou a relação bilateral diante da possível designação e a preparação de uma futura visita de Lula à Casa Branca, ainda sem data confirmada .

    Integrantes do governo brasileiro temem que a classificação possa dar verniz legal a intervenções militares na região, como ocorreu na Venezuela em janeiro, quando forças americanas capturaram Nicolás Maduro sob justificativa de combate ao narcotráfico. Diplomatas também mencionam os bombardeios a embarcações no Caribe realizados pelos EUA nos últimos meses .

    O Palácio do Planalto argumenta que PCC e CV não se enquadram na definição brasileira de terrorismo estabelecida pela Lei 13.260/2016. A legislação nacional caracteriza como terrorismo atos motivados por xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião – elementos que, segundo o governo, não estão presentes nas facções, cuja atuação é movida por interesses econômicos ilícitos .

    Debate no Congresso e articulação política

    A possível designação ocorre em meio a discussões no Legislativo brasileiro sobre o enfrentamento ao crime organizado. O Projeto de Lei Antifacção, aprovado pela Câmara dos Deputados em 24 de fevereiro, criou tipos penais como “domínio social estruturado” e “favorecimento ao domínio social estruturado”, com penas que podem chegar a 40 anos de prisão. No entanto, a equiparação direta das facções a organizações terroristas ficou de fora do texto final por falta de apoio parlamentar .

    Parlamentares de oposição, especialmente os alinhados ao ex-presidente Jair Bolsonaro, defendem o enquadramento do PCC e do CV como grupos terroristas. Nos bastidores, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro atuou junto aos presidentes Javier Milei (Argentina) e Nayib Bukele (El Salvador) para estimular a iniciativa norte-americana durante o encontro na Flórida .

    Fontes diplomáticas ouvidas pela imprensa avaliam que o vazamento da informação e o avanço da agenda nos escalões do governo Trump atendem a clamores do lobby bolsonarista nos EUA, em ano eleitoral no Brasil. O Planalto, por sua vez, busca discrição nos contatos com a Casa Branca, mas reconhece a presença de integrantes do Departamento de Estado próximos à oposição brasileira, como o consultor de Políticas para o Brasil Darren Beattie.

    Leia também:

    Mendonça e Fux dizem não conseguir acessar dados do celular de Vorcaro

    Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça...

    Cúpula do Exército critica STF por não avançar na investigação contra Moraes

    Integrantes da cúpula do Exército manifestam insatisfação com o...

    Posts da semana