Levantamento do instituto Quaest, divulgado na última semana, identificou um movimento inédito no eleitorado brasileiro: eleitores que se identificam com a esquerda, mas não são necessariamente lulistas, passaram a declarar voto no senador Flávio Bolsonaro (PL).
Embora as variações estejam dentro da margem de erro de seis pontos percentuais para esse recorte específico, o fenômeno é tratado por analistas como simbolicamente relevante.
De acordo com os dados, o apoio a Lula nesse segmento caiu de 93% em dezembro para 84% em março, enquanto Flávio subiu de 3% para 7% . “No último trimestre do ano passado e no começo deste ano, a agenda mudou e os brasileiros passaram a discutir mais questões ligadas à segurança, custo de vida e corrupção”, explicou Guilherme Russo, diretor de Inteligência da Quaest.
“Essa mudança no ambiente informacional e no debate político foi negativa para o governo e desmobilizou uma parte desse eleitorado de esquerda não lulista.”
As Características do Eleitor Não Lulista
O eleitor identificado como esquerda não lulista costuma ser mais jovem, urbano e com maior nível de escolaridade, tendo maior afinidade com partidos como PSOL, Rede, PSB e PDT . Russo complementa que esse grupo tem ligação menos forte com Lula do que os lulistas tradicionais e reage com mais intensidade a acontecimentos recentes. “A animação desse grupo com o governo Lula é mais condicional aos eventos políticos e movimentações do governo.”
A pesquisa também apontou que, entre os eleitores independentes — aqueles que não se identificam com lulismo nem bolsonarismo —, Flávio Bolsonaro passou de 23% para 32% no período, enquanto Lula caiu de 37% para 27% . Nos cenários de primeiro turno, a distância entre os dois principais pré-candidatos diminuiu significativamente, chegando a empate técnico em algumas simulações .
Percepção Econômica e Críticas ao Governo
O levantamento mostra ainda que a esquerda não lulista é o único segmento onde aumentou a preocupação com a economia. Para Deyvis Barros, secretário do diretório paulista do PSTU — partido que se encaixa nesse perfil —, há uma desconexão entre o discurso oficial e a realidade.
“Para fazer propaganda do governo, o Lula tem focado o discurso em indicadores econômicos. O problema é que, na vida real, há uma piora importante na precariedade dos empregos e no aumento do custo de vida”, afirmou à Gazeta do Povo.
Barros acrescentou que “moradores das periferias das grandes cidades ficam espremidos entre o crime organizado e a própria violência do estado, com mulheres também enfrentando o aumento de casos de feminicídio. Isso é fruto de uma determinada escolha política do Lula.”
Pré-candidatos Mirando o Eleitor Descontente
A movimentação desse segmento eleitoral tem atraído a atenção de pré-candidatos que buscam se posicionar como alternativa à polarização. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), afirmou em entrevista à GloboNews na última quinta-feira (12) que mira exatamente o eleitor que se identifica como esquerda ou direita, mas não se sente representado nem por Lula nem por Bolsonaro.
“[Há uma] esquerda não lulista que quer ver uma candidatura com visão de inclusão, de respeito à diversidade, preocupada com os temas sociais”, declarou Leite, que também defendeu ser possível conciliar essas pautas com uma agenda de segurança pública firme e Estado mais enxuto . O discurso antipolarização também aparece no manifesto de sua pré-candidatura, que propõe um “novo pacto pela governabilidade democrática” .
Metodologia
A pesquisa Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de março, por encomenda do Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para o total da amostra, com nível de confiança de 95%. O registro no Tribunal Superior Eleitoral é BR-05809/2026