A expressão “adultização” entrou no vocabulário nacional após a viralização de um vídeo do influenciador Felca, que denuncia a erotização precoce de crianças e critica a participação de adolescentes em atividades laborais antes da idade considerada adequada.
O material gerou ampla repercussão e foi rapidamente adotado por diversos setores da sociedade como bandeira de proteção à infância, algo que vem sendo questionado e criticado por personalidades e populares, incluindo a jornalista Paula Schmitt, que escreveu uma matéria no Poder360 explicando os seus argumentos.
De acordo com a jornalista, uma análise mais detida do conteúdo e de seus desdobramentos revela contradições significativas entre o discurso de seus defensores e as práticas de algumas figuras públicas que aderiram à causa.
O vídeo, intitulado “Adultização”, sustenta que o fenômeno seria um problema novo, surgido com a internet, e mistura em um mesmo pacote conceitual a exploração sexual infantil e o estímulo ao empreendedorismo infantojuvenil, como os chamados “empresários mirins”.
Críticos apontam que essa confluência é inadequada, pois joga na mesma vala pais que incentivam os filhos a trabalhar e criminosos que exploram sexualmente menores. Além disso, a afirmação de que a exploração infantil começou com a internet é factualmente incorreta, havendo registros históricos de trabalho infantil forçado desde a Grécia Antiga e na Inglaterra do século XIX, como nas minas de carvão.
O Caso Lula e a Camiseta de Neiff
Apenas três dias antes do lançamento do vídeo de Felca, em 14 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de um evento em Recife ao lado do prefeito João Campos (PSB) e do deputado federal Pedro Campos (PSB) para homenagear a música brega. Na ocasião, o presidente posou com o cantor Anderson Neiff, que vestia uma camiseta com a frase “Respeita quem te come”.
A situação ganhou contornos mais graves com informações divulgadas pela jornalista Madeleine Lacsko. Segundo ela, Neiff é amigo e parceiro de Hytalo Santos, influenciador preso na Paraíba sob investigação por exploração sexual infantil, e é alvo de apuração policial há mais de um mês.
As investigações incluem a morte de duas pessoas em um show do cantor e a participação de uma menina de 11 anos que teria dançado eroticamente no palco. Madeleine também divulgou supostas mensagens de Neiff para uma adolescente de 14 anos com conteúdo sexual explícito.
O episódio expõe uma contradição: enquanto o governo e setores da imprensa adotam o discurso de combate à adultização, o chefe do Executivo aparece publicamente ao lado de um investigado por crimes relacionados à exploração de menores.
Hipocrisia Digital e o Criador do Vídeo
O próprio Felca, idealizador do conceito de “adultização”, viu-se envolvido em controvérsias após a viralização de seu conteúdo. Publicações antigas em sua conta na rede social X (antigo Twitter) foram apagadas, mas resgatadas por internautas. Entre elas, um vídeo mostra uma menina de aproximadamente 10 anos realizando dança sensual, sem qualquer tarja ou pixelagem. Em outra postagem, uma foto de um menino aparentando ter no máximo 8 anos aparece nu, sentado à mesa de uma cozinha, com o rosto do influenciador sobreposto à imagem. Acima da foto, a legenda: “Meu público alvo”.
As postagens levantaram questionamentos sobre a coerência do influenciador, que agora defende a regulamentação das redes e a proteção das crianças, mas anteriormente expôs menores de forma inadequada.
O Histórico da Denúncia e a Inversão da Culpa
Um aspecto pouco explorado no debate atual é que as denúncias contra Hytalo Santos não são novas. Há cerca de um ano, a apresentadora Antonia Fontenelle publicou um vídeo expondo as mesmas práticas. O material, no entanto, foi removido por decisão judicial na Paraíba sob ameaça de multa, antes de atingir 50 mil visualizações. À época, a denúncia foi ignorada ou desmerecida por parte da imprensa, possivelmente por associação da autora a posições políticas de direita.
Parte da argumentação utilizada no vídeo de Felca para defender a regulamentação das redes baseia-se na existência de comentários como “link in bio” em perfis de crianças, que seriam usados por pedófilos para comercializar fotos.
Críticos apontam que essa linha de raciocínio inverte o ônus da culpa: em vez de punir os criminosos, a sociedade seria responsabilizada por “provocar” o desejo dos agressores. Nesse sentido, programas jornalísticos chegaram a comparar a pedofilia a uma doença, como a diabetes, que precisaria ser tratada, sugerindo que a sociedade deve se adaptar para não desencadear impulsos criminosos.
O Debate no Congresso e a “Regulamentação das Redes”
Em meio à comoção gerada pelo vídeo, o Congresso Nacional acelera a tramitação de projetos que visam à chamada “regulamentação das redes sociais”. A celeridade do processo, com desrespeito aos trâmites regimentais, preocupa setores da sociedade, que temem que a lei possa ser usada para perseguir adversários políticos e não para punir efetivamente criminosos.
A subjetividade do conceito de “adultização”, que no vídeo de Felca abrange desde a erotização de crianças até o estímulo ao trabalho infantojuvenil, levanta dúvidas sobre sua aplicabilidade prática. Há o receio de que pais que compartilham fotos dos filhos na internet, que os incentivam a vender doces ou a lavar o carro para ganhar mesada possam ser enquadrados em futuras legislações.
Um Problema Antigo e a Seletividade da Indignação
A exploração sexual de crianças e o trabalho infantil são problemas históricos, que não surgiram com a internet. O que mudou foi a capacidade de monetização e exposição dessas práticas por meio das plataformas digitais.
A seletividade da indignação também chama atenção: enquanto casos como o de Hytalo Santos ganham repercussão agora, a exposição de crianças em programas televisivos de grande audiência no passado, como o “Xou da Xuxa”, que chegou a ter capas de álbuns com bebês usando fio dental, não gerava o mesmo nível de comoção.
O debate sobre a adultização expõe, assim, contradições profundas na sociedade brasileira: entre o discurso de proteção à infância e as práticas de figuras públicas, entre a defesa da regulamentação e a memória seletiva sobre abusos passados, e entre a punição de criminosos e a responsabilização coletiva da sociedade pelos desejos de agressores.