Nos últimos anos, o Exército brasileiro realizou um expressivo investimento em equipamentos de defesa, totalizando R$ 1,27 bilhão em equipamentos de defesa. As aquisições incluíram 220 mísseis antitanque e 163 carros blindados de transporte de tropas, com o objetivo declarado de reforçar a capacidade de dissuasão e o preparo operacional diante de desafios militares contemporâneos. As informações foram obtidas pelo jornal Folha de S.Paulo por meio da Lei de Acesso à Informação.
Mísseis Nacionais e Estrangeiros
A compra de mísseis foi dividida em duas frentes. A primeira envolveu a aquisição de cem unidades do modelo Javelin FGM-148F, concluída em 2025 por R$ 153,8 milhões, por meio de negociação direta com o governo dos Estados Unidos em Washington.
O segundo lote foi composto por 120 mísseis 1.2 AC Max, produzidos nacionalmente pela empresa Siatt Engenharia, em São José dos Campos (SP), com contratos firmados entre 2019 e 2025. O sistema brasileiro é classificado como de médio alcance e utiliza orientação por laser invisível codificado, que guia o projétil até o alvo.
Ao justificar as aquisições, o Exército destacou lições extraídas de conflitos recentes, como a guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, e os confrontos entre forças israelenses e grupos palestinos. Segundo a avaliação militar, os conflitos evidenciaram a eficácia de mísseis portáteis para interromper o avanço de colunas blindadas e para atuação em ambientes urbanos contra forças mecanizadas superiores.
Frota de Blindados e Contexto Regional
Paralelamente aos mísseis, a Força incorporou 163 carros blindados, em sua maioria do modelo VBTP Guarani 6×6, fabricado pela IDV Brasil em Sete Lagoas (MG). O investimento nesse setor alcançou R$ 1,12 bilhão. O veículo possui capacidade anfíbia, pesa cerca de 18 toneladas, atinge velocidade máxima de 110 km/h e tem autonomia de aproximadamente 600 km. Um acordo mais amplo com a fabricante prevê investimentos de R$ 7,5 bilhões para aquisição de centenas dessas unidades até 2040.
Militares envolvidos nas discussões apontam que o avanço das negociações foi acelerado pela crise envolvendo a Venezuela e a Guiana em torno da região de Essequibo, no final de 2023. Na ocasião, avaliações de inteligência chegaram a considerar a possibilidade de uma ofensiva terrestre venezuelana contra a Guiana, cenário que poderia ter impactos diretos na fronteira brasileira. Em resposta, as Forças Armadas deslocaram tropas, blindados e sistemas de mísseis para Roraima.
O cenário regional sofreu uma reviravolta em janeiro de 2026, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou uma operação militar contra Caracas e a captura do então presidente Nicolás Maduro, levado a Nova York para responder por acusações de tráfico de drogas.
Após o episódio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva solicitou às Forças Armadas uma análise sobre as vulnerabilidades do Brasil diante de ações externas desse tipo. Em visita oficial do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, Lula comentou que, embora a América do Sul se apresente como uma região de paz, a falta de preparo militar pode expor os países a ameaças.
Sigilo sobre Distribuição
A reportagem solicitou ao Exército informações detalhadas sobre a localização dos novos armamentos, mas a força recusou-se a divulgar os dados, alegando que a publicidade poderia comprometer a segurança nacional e prejudicar operações estratégicas. Documentos já públicos, contudo, indicam que parte do material foi destinada a unidades em Roraima, à 1ª Companhia Anticarro Mecanizada em Osasco (SP) e a brigadas militares no Paraná, enquanto testes com os novos equipamentos foram realizados no Rio de Janeiro