A professora Jacqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), tornou-se alvo de reações nas redes sociais após a divulgação de declarações suas sobre a relação entre o Estado e o crime organizado no Rio de Janeiro.
Em vídeos que circularam amplamente, a acadêmica foi criticada e ironizada por figuras públicas, incluindo os deputados federais Delegado Palumbo e Nikolas Ferreira. Este último referiu-se a ela como “Pica Pau”, em alusão a uma característica física (cor do cabelo).
As declarações que motivaram as reações foram dadas durante análises sobre a megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, que resultou em mais de uma centena de mortos. Muniz contestou a noção de “Estado paralelo” nestas localidades. “Não existe território no Rio de Janeiro em que a polícia não entre. A polícia do Estado tem soberania sobre o território. Ela entrega, terceiriza para o crime e arrenda territórios populares”, afirmou.
A professora argumentou que a estrutura estatal participa ativamente da dinâmica criminal. “Quem organiza o crime é o Estado. Ele funciona, numa democracia, como uma agência reguladora do crime para o bem ou para o mal. Não existe Estado paralelo nem Estado ausente. O Estado negocia a sua presença”, declarou.
Muniz também estabeleceu uma conexão entre o crime e a política, afirmando que as “principais lavanderias do dinheiro do crime” no estado estariam associadas a “carreiras eleitorais, caixa dois de campanha e algumas igrejas”. Sua tese central foi resumida na frase: “Governa-se com o crime aqui, e em outros lugares, não contra ele”.
Ela também afirmou que fuzis, que são armamentos de guerra, não são tão eficazes para o crime do tráfico, sendo que até com uma “pedrada” um criminoso portanto esse tipo de arma poderia ser derrubado. De forma semelhante, ela disse que drones seriam “brinquedos”, provocando reações negativas também por isso.
“Se você subir a favela e fizer um bandido armado com fuzil ser rendido com uma pedrada na cabeça, eu faço campanha pro Lula. Desafio lançado, pica pau”, comentou Nikolas Ferreira ao compartilhar um vídeo da professora.
Contexto da Operação Policial
A declaração da professora referia-se à operação realizada na terça-feira, 28 de maio, que mobilizou aproximadamente 2.500 agentes das polícias Civil e Militar. A ação cumpriu 160 mandados de prisão contra suspeitos de integrar o Comando Vermelho (CV), com o objetivo declarado de conter o avanço da facção na zona norte da capital.
Durante a intervenção, houve confrontos armados, explosões e registros de ataques com drones equipados com artefatos explosivos. O balanço de vítimas foi objeto de divergências: o governo estadual divulgou inicialmente 64 mortos, incluindo quatro policiais, enquanto a Defensoria Pública do Rio contabilizou 132 óbitos, sendo 128 civis e quatro agentes de segurança.
O saldo operacional incluiu 81 prisões e 12 policiais feridos, sendo quatro fatalmente. A ação provocou paralisia em extensas áreas da cidade, com suspensão de aulas, fechamento do comércio e esvaziamento de vias públicas.
O caso permanece sob apuração para investigar eventual quebra de sigilo operacional ou se a previsibilidade da ação decorreu da escala da mobilização policial. O episódio reacendeu o debate sobre as estratégias de segurança pública e o combate ao crime organizado no estado.